quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

No caminho do fim do mundo segundo a visão Guarani-Kaiwoá

Esta é uma nota da Aty Guasú
Divulgada por Mauro Kassow Schorr (Orua)
Instituto Anima de Desenvolvimento e Cultura Sustentável
Sitio Cristal Dourado e Espaço Terapêutico Pulsar, ilha da Magia, Florianópolis (SC)
 

Postado aqui por Jackson Lima 
 

O Fim do Mundo ocorrerá em decorrência do avanço do agronegócio, cana de açúcar, sobretudo pela destruição da Natureza. Essa nota visa explicitar de forma sintética o FIM DO MUNDO na nossa visão dos Guarani e Kaiowá. É destacar que uma das preocupações e lutas centrais dos intelectuais/sábios/lideranças Guarani e Kaiowá é para não ocorrer o FIM DO MUNDO.

Nossos intelectuais e lideranças Guarani e Kaiowá explicam que há basicamente alguns fatos fundamentais que levarão ao fim do planeta Terra/Mundo e da humanidade, tais como: “FIM DO MUNDO ocorrerá quando não existir mais a floresta e os animais nativos”, “o FIM DO MUNDO acontecerá quando as cabeceiras dos rios e córregos secarem onde não existirão mais os peixes”, “o FIM DO MUNDO acontecerá quando terra/solo cansado não produzirá mais as plantações comestíveis”, “o FIM DA HUMANIDADE ocorrerá quando não há mais a reprodução humana, ou seja, quando não nascer mais criança”.

Essas concepções e explicações milenares Guarani e Kaiowá que fundamentam as lutas indígenas pela defesa da floresta, rios e córregos existentes nos territórios tradicionais. Visto que uma das atribuições dos Guarani e Kaiowá é lutar para salvar a terra, floresta e rios dos perigos iminentes para que não ocorra.

A ligação com a terra (em guarani, “yvy”), assim, é vista por esses indígenas, por um lado, como tendo uma fundamentação econômica, de desenvolvimento de atividades que permitem a sobrevivência dos Guarani e Kaiowá, e, por outro, com um forte sentimento religioso de pertencimento à terra, fundamentada em termos cosmológicos, sob a compreensão de que os Guarani e Kaiowá foram destinados, em sua origem como humanidade, a viver e a cuidar deste território específico.

Em relação ao significado vital do território para o povo Guarani e Kaiowá, é preciso observar em detalhe o relacionamento desses indígenas com os seres invisíveis/guardiões (protetores/deuses) da terra, manifestado através de cantos e rituais diversos dos líderes espirituais. A forma de diálogo e respeito com esses seres humanos invisíveis marca uma diferença muito importante em relação à percepção e ao uso dos recursos naturais da terra. Esse é um aspecto fundamental e determinante do relacionamento dos Guarani e Kaiowá com os territórios antigos.

Os Guarani e Kaiowá têm ligação e conexão direta com os territórios específicos, se consideram como uma família só, dado que o território é visto por estes indígenas como humano. Os Guarani e Kaiowá possuem um forte sentimento religioso de pertencimento ao território específico, fundamentado em termos cosmológicos, sob a compreensão religiosa de que os Guarani e Kaiowá foram destinados, em sua origem como humanidade, a viver, usufruir e cuidar deste território, de modo recíproco e mútuo. Portanto, eles podem até morrer para salvar a terra. Há um compromisso irrenunciável entre os Guarani e Kaiowá e o guardião/protetor da terra, há um pacto de diálogo e apoio recíproco e mútuo: os Guarani e Kaiowá protegem e gerenciam os recursos da terra e, por sua vez, o guardião da terra vigia e nutre os Guarani e Kaiowá.

A compreensão destes espaços territoriais pelos Guarani e Kaiowá tem uma concepção cosmológica específica, sui generis, e uma fundamentação cosmológica e histórica que se enraíza em tempos passados e perdura até o presente. Dessa forma, a luta de recuperação das antigas áreas ocupadas pelos Guarani Kaiowa é realizada por meio de reocupação ou retorno pacífico ao território, caracterizado como um movimento pacífico e político-religioso exclusivo. Isto é, trata-se de uma articulação política comunitária e inter-comunitária de lideranças religiosas Guarani e Kaiowá.

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