quarta-feira, 9 de outubro de 2013

As Cataratas do Iguaçu e seus ilustres visitantes



O texto abaixo é umde dois editoriais que escrevi para a Gazeta do Iguaçu no final de 2001. Eu gostei de reencontrá-los. Pô, eu era mais maluco na época! Preciso recuperar minha maluquice. Espero que você goste: 

Editorial

As Cataratas do Iguaçu são uma catedral. Mais sagradas do que a mais sagrada catedral. Prova disso, é o domínio absoluto que as Cataratas exercem sobre todos os mortais que a visitam. Ontem foi a vez de Bill Clinton. Quando nossa reportagem pediu que o ex-presidente dos EUA, comparasse as Cataratas do Iguaçu com as Cataratas de Niágara, ele respondeu: “incomparáveis”. Isso foi dito por um norte-americano. Por um ex-presidente do país mais poderoso do mundo.

Com a exceção do trade turístico local, com exceção dos administradores do turismo local, o mundo todo reconhece a soberania incontestável das Cataratas do Iguaçu no Reino das Águas do Planeta. Por que Clinton disse que Iguaçu e Niágara são incomparáveis? Primeiro pela sua beleza. Iguaçu, a rainha, é uma Deusa natural. A natureza, nelas, reina absoluta. As Cataratas reinam absolutas. Quem quer que passe diante de sua glória, sai renovado. Aliviado. Com um grande sorriso estampado no rosto. Por que?

Porque as Cataratas se bastam. Daí elas podem dar. Elas não necessitam que Eleanor Roosevelt, Bill Clinton, Tony Blair ou qualquer outro ocupante temporário de trono ou cadeiras presidenciais, venham dizer que são belas. Elas se bastam. Elas sabem que são belas. São as únicas. É o visitante quem ter que estar consciente de seu privilégio de render-se ao seu orvalho, seu vapor, seu arco-íris. 

E então, por que a dificuldade de vendê-las no mundo? Sem dúvida não é uma deficiência das Cataratas. É uma deficiência nossa, de todos aqueles que moramos na Terra das Cataratas e especialmente daqueles que são responsáveis pela sua divulgação. Falta-nos entender  que as Cataratas bastam-se a si mesmas. São bonitas e belas para si próprias.

Falta-nos desenvolver uma amor que queime; um amor que nos encha de um êxtase quase religioso. É a espécie de amor que os guaranis sentem pelas Cataratas quando celebram a “mandu’á porã”, a cerimônia da lembrança. Da lembrança dos tempos velhos quando as Cataratas eram consideradas (pelos incivilizados) como uma Deusa – um lugar sagrado.

É este amor que devemos recuperar. Nós, os donos da casa, primeiro. Depois o resto do mundo.  Ao contrário nos vemos hoje como uma cidade que vê as Cataratas como fonte de dinheiro. Só isso. Nós, (civilizados) só vemos dinheiro nas quedas d’água. Por isso queremos tornar as nossas Cataratas iguais as de Niágara. Sabe para quê?  Para que um dia, um outro Clinton venha e diga: não há diferença. As duas são iguais. As duas comercializadas. As duas foram prostituídas. Nas duas, a Natureza foi reduzida. Nesse dia, até a nossa “vantagem competitiva” terá se esvanecido.            

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